Trecho

30jun09

(…) Movido pela sua ansiedade e atraído pela dela, agarrou a mão que fica estendida, imóvel e saudosa. Depois, ambos, como em sonhos, sonambulamente, subiram a escada escura, que rangia sob os seus passos, atravessaram um sombrio corredor e no quarto, inundado pela penumbra de um precoce crepúsculo de chuva, deixaram-se cair em cima da coberta rugosa que tapava sombriamente a cama e retomaram o beijo que havia interrompido, com os rostos orvalhados da chuva ou de lagrimas, nem eles sabiam. Mas Ruzena libertou-se, guiou-lhe a mão até os colchetes que lhe fechavam nas costas a blusa e a sua voz cantante fez-se triste: “Desaperte isso!”, sussurrou, enquanto lhe puxava a gravata e os botões do colete. E, como num brusco aceno de humildade, perante ele ou perante Deus, em ação de graças, caiu de joelhos, a cabeça na beira da cama, e desapertou-lhe os sapatos. Que horror! Porque não se deixa cair uma pessoa, sem ter de pensar no estojo em que esta enclausurada? Mas que grato se sentiu  quando ela o libertou do seu com um cuidado tocante! Oh que redenção no sorriso com que ela abriu onde ambos se precipitaram! Um ultimo estorvo: o peitilho engomado da camisa cujas arestas lhe picavam o queixo. Ela abriu-lhe, passou-lhe a cabeça a custo entre os bordos agudos, depois ordenou: “tire isto!” e então tudo foi abandono e carícias, suavidade do corpo, hálito, respirar ofegante no fluxo das sensações, êxtase que sobe no fluxo da ansiedade. Ó ansiedade da vida que brota da carne viva, que enroupa os ossos. Suavidade da pele que os veste cingidamente, sinistra admoestação do esqueleto, da arca do peito de múltiplas costelas que nós podemos abranger e que, respirando, se comprime contra nós com o coração que palpita com o nosso. Ó doce aroma da pele, úmido perfume, rego macio entre os seios, escuridão das axilas. Mas a perturbação de Joachim, a perturbação dos dois era ainda grande demais para lhes permitir conhecer o encantamento, sabiam apenas que estavam juntos e tinha de se procurar. No escuro, ele viu o rosto de Ruzena que parecia desaparecer entre as margens brenhosas dos caracóis, e a sua mão teve de procurar aquele rosto, teve de assegurar-se de que ele estava ali, encontrou a testa e as pálpebras, sob as quais repousam as pupilas, encontrou a deliciosa curvatura das faces e a linha da boca aberta para o beijo. Onda de desejo contra onda de desejo. Levado pela corrente, o beijo dele encontrou o dela e, enquanto os salgueiros do rio cresciam, se estendiam de margem a margem e os envolviam como uma gruta de felicidade em cuja calma repousa o silencio do eterno lago, foi – tão baixo, tão sufocadamente, com tão entrecortada respiração ele o disse – como um grito que ela o ouviu: “Te amo”, grito com que a abriu de tal modo, que também ela, como numa concha no mar, se abriu e ele nela se afundou e se afogou.

Anúncios

A Árvore

29jun09

É sobre a história de uma árvore, mas não uma árvore qualquer. Não era um mero vegetal, uma mera planta. Ela fazia parte da história daquela cidadezinha que ficava no meio do nada. Todas as tardes os peões iam descansar à sua sombra. Foi debaixo dela que a dona Judite e o seu João deram o seu primeiro beijo, agora são casados há mais de 50 anos. No outono, os frutos saborosos pendiam de seus galhos e poupavam o trabalho das crianças que insistiam em roubar alguns dos outros vizinhos. Não ficava em nenhuma praça, em nenhuma propriedade, era pública. Era enorme para os insetos e pássaros que lá faziam suas casas e pequena demais para a imensidão do céu azul de poucas nuvens que a avistava de cima.

Eles vieram de algum lugar, não se sabe de onde. Donos de seus impérios e grandes casas, cheias de andares que pareciam arranhar os céus. Todas sem cor, sem vida. Eram sujeitos sérios, de poucas palavras, não puxavam assuntos com os moradores da cidadezinha, apenas com o prefeito. Que era um homem bom, aliás, apesar de ser ambicioso demais. Quando esses homens chegaram, o lugarejo festejou: é o dia da nossa evolução!, dizia seu João, parafraseando um dos homens sérios sem saber exatamente o que essa frase queria dizer.

Continue reading ‘A Árvore’


Queridos papai e mamãe que nunca tive!

Escrevo para lhes contar que a vida que planejaram para mim, antes mesmo que nascesse, esta seguindo por rumos diversos. Não sou mais o vosso querido filho, tão esperado e amado, sou, agora, um filho do mundo. Sou o que há de melhor e pior do cais do porto, do mercado velho e do quartel. Sou um perdido que se encontrou no meio da bagunça desse mundo intitulado moderno.

Desculpe-me por frustrar seus planos tão queridos, por desmanchar sonhos tão bem construídos em meio à felicidade e alegria. Sonhos forjados na bonança de tardes quentes de verão, sob a sombra trêmula de alguma árvore. Os destruí! Se me vissem agora, à luz da candeia com uma garrafa na mão não reconheceriam o filho amado. Nunca imaginariam que a criança criada com tanto zelo e mimo se tornaria um flibusteiro mal caráter, desordeiro de fama, ladrão mal sucedido. O sonho em que me construíram foi desfeito e em seu lugar surgiu o insucesso de hoje. O fracasso que me tornei nada tem a vê com teus planos ou com os carinhos de minha criação, tem a ver com a vida que levei e por onde andei.

Continue reading ‘Carta aos pais que nunca tive’


Lua Adversa

20jun09

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

Cecília Meireles


O Mendigo

03jun09

Sua vida era inconstante, todos os dias uma novidade. Tinha calos nos pés de tanto andar por esse país, e rugas dos problemas e contratempos sofridos, mas tudo bem, ele pensava, um dia vai mudar. Carregava consigo uma colcha que ganhou de um abrigo uma vez; já estava toda furada das mordidas dos cachorros de rua que tentaram roubá-la dele. Suas roupas eram sujas e rotas, e há muito tempo estavam com ele. De vez em quando conseguia lavá-las em chafarizes pelos parques afora. Desistira de pentear os cabelos, então só os puxava para trás num rabo-de-cavalo. Não tinha nome, nem casa. Não lembrava de onde vinha e não sabia para onde ia. Era filho do mundo desde quando se identificou por gente. E todos os dias eram assim, diferentes e inconstantes, andando pelo mundo sem lenço e muito menos documento.


Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena, que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
E vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo?

Cecília Meireles


O Menino

24abr09

Sentou-se a beira da estrada a espera de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia que uma hora chegaria algo tão grandioso e surpreendente quanto o céu e, então, seria o primeiro a ver. Sentia que seu futuro seria grandioso por ter sido exatamente o primeiro a ver, não sabia o que, mas sonhava com mil coisas. Sentia saudades e a dor da solidão e da espera enquanto ficava sentado, olhando o céu e desejando com todas as suas forças que aquilo chegasse logo.

Todos os dias, desde que sentiu que algo chegaria em breve, passava as tardes na beira da estrada, contemplando o céu com seus olhos miúdos e torcendo as mãos sem força de criança desnutrida. Enquanto todos os garotos da cidade reinavam em alguma parte, sob os pés de manga ou à beira do rio fazendo molecagens, ele, sozinho, permanecia como uma estátua a espera de seu destino. Mal comia o feijão que a mãe lhe punha e corria para o mesmo local. Sabia que sua ventura chegaria e em seu magro peito um coraçãozinho batia forte a cada vez que sentia movimento pela estrada. As vezes se sobressaltava com algum transeunte, uma vaca ou algum cachorro. Logo se recompunha, controlava a emoção desvairada e voltava a esperar. Uma vez ou outra chegavam uns cavaleiros, cobertos da poeira amarela da estrada, e uma dúvida crescia, e se fossem eles o que esperava? O coração batia como o bumbo da festa do rosário, mas logo decidia que não, e voltava a esperar. As vezes fitava o céu esperando que chegasse, alado, o seu mistério, ficava horas vendo a revoada das maritacas e as nuvens vermelhas das tardes quentes de verão.

Continue reading ‘O Menino’